No Campo e na Fábrica: cervejas artesanais na economia de Guarapuava

Capital Nacional da Cevada e do Malte, Guarapuava tem 10 cervejarias artesanais e produz em torno de 90 mil litros de cervejas mensalmente. Além da bebida, o município produz a cevada, o malte, tem uma fábrica de equipamentos industriais para cervejarias e abriga um polo de pesquisa e desenvolvimento de cervejas. São mais de 50 empregos diretos somente na fabricação. Bebidas feitas aqui já faturaram mais de 110 medalhas em concursos nacionais e internacionais.

Criando a receita das cervejas

Desenvolvendo produtos

Cervejaria experimental da Cooperativa Agrária recebe clientes de todo o país para desenvolver receitas de novas cervejas.

Escola

Cooperativa mantém o Akademie, voltado para disseminação de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias na área da cerveja. No mesmo local também funciona uma escola de panificação.

Embalagem

Cervejaria experimental tem equipamentos para embalar a bebida em latas de alumínio ou garrafas de vidro.

Em Guarapuava existe um centro de desenvolvimento de novas cervejas. Local onde são testadas as receitas, feitos os ajustes antes de iniciar a produção industrial. Ao longo de nove anos são mais de 350 produtos validados antes de iniciarem a produção. Desde grandes cervejarias, até marcas regionais instaladas de Norte a Sul do País.

 

“Vem clientes do Brasil todo, nós temos toda semana sotaques diferentes aqui”, contou Alexander Robert Schwarz, mestre Cervejeiro responsável pela cervejaria experimental da Cooperativa Agrária.

 

“Nós desenvolvemos o que o cliente quiser, um estilo novo, uma técnica nova, um insumo que ele queira testar, nós também antecipamos tendências aqui, pois viajamos muito pelo país e em congressos internacionais e trazemos novas tendências e desenvolvemos produtos nesta linha”, explicou. 

 

Ele citou como exemplo as cervejas com maior drinkabilidade, baixa caloria, baixo teor alcoólico, sem glúten, zero carboidratos. Algumas das tendências que, segundo ele, se fortaleceram depois da pandemia. Para produzi-las, foi preciso desenvolver melhores técnicas. 

 

A Agrária tem uma das principais maltarias do Brasil, na Colônia de Entre Rios, em Guarapuava. Ela industrializa e transforma o grão da cevada, uma cultura de inverno amplamente cultivada em nossa região há 50 anos, em malte, um dos principais insumos da cerveja. A indústria fornece em torno de 25% do insumo para o mercado nacional.

A cervejaria experimental conta com 10 mestres cervejeiros e serve para que todo o conhecimento sobre a produção cervejeira da cooperativa ajude os clientes a desenvolver o melhor produto.

 

“Oferecemos para o cliente um pacote tecnológico de técnicas e insumos que a gente sabe que funcionam, que dão produto de qualidade”, explica Schwarz. “Ele tem aqui a segurança de testar o seu protótipo, de degustar, de ter exclusividade da receita e poder replicar em sua cervejaria”, completou. 

 

Para as cervejarias de Guarapuava, esse apoio tão próximo foi fundamental para o desenvolvimento de cervejas de alta qualidade e premiadas. 

 

“Nós temos 10 mestres cervejeiros, formados todos no exterior, em diferentes academias e com muita participação em congressos, e repassamos essas informações para o mercado, por eles estarem próximos acabam tendo essas informações com antecedência”, disse Schwarz. 

Construindo as cervejarias

Guarapuava conta com uma indústria especializada na construção de cervejarias. Já foram montadas fábricas da bebida em todas as regiões do país. 

Da moagem a fermentação

Indústria de Guarapuava se especializou e oferece equipamentos para todas as etapas de produção das cervejas artesanais.

O boom das cervejarias em Guarapuava ocorreu entre 2017 e 2021. Foram sete novas fábricas neste período. Diferentes fatores aceleraram essa que é uma das mais recentes vocações econômicas da cidade. Um deles foi o desenvolvimento de uma indústria local de equipamentos para cervejaria.


O engenheiro de produção mecânica Adilson Pimentel empreendeu há nove anos e já produziu equipamentos para fábricas instaladas em mais de 20 estados brasileiros.


“Temos soluções para parte de brassagem, fermentação e maturação, temos uma tecnologia muito grande na parte de moinhos e trabalhamos com acessórios como lavadores de barris, que também fazem parte da planta da cervejaria”, relatou Adilson, fundador e proprietário da Heis Industrial. 


A fabricação é realizada em Guarapuava, as chapas e tubos de aço inox são cortadas, soldadas, polidas e se transformam em fábricas com tamanho ajustado ao cliente. O Adilson precisou montar uma equipe qualificada e trabalhar com precisão na elaboração dos projetos para atender um cliente exigente que busca o melhor resultado do equipamento.


“Nosso cliente conhece do processo, da parte química, da parte física, biológica, e toda vez que ele traz um desafio acaba nos provando e nos desenvolvemos mais, isso é um ciclo contínuo”, disse. “Sempre que atendemos uma necessidade específica, acaba agregando alguma coisa nos nossos equipamentos, no processo, na nossa expertise”. 


Muitas fábricas de Guarapuava produziram cervejas premiadas nos equipamentos feitos em Guarapuava e com matéria-prima majoritariamente de Guarapuava. É um ciclo completo.


Para os fabricantes da bebida, ter a proximidade com o desenvolvedor e fabricante do equipamento é uma vantagem, pois facilita a assistência técnica. Esse é um diferencial que o industrial Adilson busca oferecer aos clientes: qualidade e proximidade. Fatores que ajudam na competição com produtos importados.

Da moagem a fermentação

Equipamentos fabricados em Guarapuava atendem todas as necessidades as etapas das cervejarias artesanais. 

Genética e manejo da cevada para garantir insumo de qualidade na indústria cervejeira nacional

Desenvolvimento genético é fundamental para garantir a cevada ideal para indústria de malteação. Em Guarapuava são realizadas pesquisas para desenvolver as melhores cultivares.

Os campos de Guarapuava cultivam cevada há mais de cinquenta anos. O grão da cevada transformado em malte na indústria é um dos principais ingredientes para a fabricação de cervejas. Guarapuava obteve em 2024 o título de capital nacional da cevada e do malte. E não foi por acaso.

 

No município está a maior maltaria da América Latina, que pertence a cooperativa Agrária, e tem capacidade instalada de 360 mil toneladas por ano.

 

Mas a produção começa antes. Nos campos são semeados grãos de cevada que passaram por desenvolvimento genético que garantem qualidade e quantidade de cevada para indústria da bebida. A planta é ajustada para atender a necessidade da fábrica. 

 

“Primeiro nós temos que saber o que os nossos clientes querem, os produtores de cerveja, a maltaria, e conhecendo as características ideais começamos o processo para escolher os tipos de cevadas que vamos fazer o cruzamento para ter melhorias nas características”, explicou Eduardo Stefani Pagliosi, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (Fapa), mantida pela Cooperativa Agrária.

 

Fatores como um grão com tamanho, ph, teor de proteína adequados são perseguidos na fase de pesquisa e determinam a qualidade do malte e, consequentemente, da cerveja. Por isso a pesquisa é fundamental para o setor.

 

“Precisamos de muita informação, aplicamos muita ciência e depois testar isso em novos locais, para poder ter mais assertividade”, explicou Pagliosi. 

 

Uma nova cultivar pode levar de 10 a 12 anos pra semente ser disponibilizada para plantio. No Brasil, a FAPA é referência na pesquisa e desenvolvimento de cevadas cervejeiras. Cenário que tem a Embrapa e Ambev também em destaque.

 

Na fundação, já foram desenvolvidas as cultivares Imperatriz, Duquesa e Princesa. Tolerantes às principais doenças e adaptadas ao clima regional.

 

Foco na qualidade

Detentora da maior maltaria do país, Cooperativa investe na pesquisa, via Fapa, para ter grãos de qualidade entregues na indústria. Foto: Agrária.

Genética

Na FAPA, já foram desenvolvidas as cultivares Imperatriz, Duquesa e Princesa. Tolerantes às principais doenças e adaptadas ao clima regional. Foto: Agrária.

Mais produção

Área de produção de cevada estão sendo ampliada para dar conta da demanda da Maltaria Campos Gerais. Foto: Ari Dias/AEN.

Expansão via cooperativas

Cooperativas Agrária, Bom Jesus, Capal, Castrolanda, Coopagricola e a Frísia ampliando a área de plantio da cevada. Foto: Jaelson Lucas/Arquivo AEN.

 

 Plantar mais para dar conta da demanda
 

Agora o desafio é produzir mais cevada para atender a demanda da indústria. Em 2024 foi inaugurada a Maltaria Campos Gerais, com capacidade inicial de 240 mil toneladas. Volume que deve chegar a 500 mil toneladas em cinco anos. Isso vai demandar um aumento na produção de cevada cervejeira de qualidade para sustentar a indústria.

 

Por isso, o plantio está se expandindo pelos Campos Gerais, no Paraná, até o Sul do Estado de São Paulo.

 

“As necessidades da indústria são as mesmas, as demandas dos produtores também, então o que temos de conhecimento aqui [região de Guarapuava] pode ser usado para eles”, disse o pesquisador da Fapa Noemir Antoniazi. 

 

“Mas, claro que temos desafios diferentes como clima mais quente, regime de chuva menor”, ponderou. Condições que exigem investimento não apenas em novas genéticas, mas adequações de manejo. 

 

As épocas de plantio tem sete janelas diferentes entre o Sul paulista e Centro-sul paranaense. Noemir explica que os próximos passos para dar conta dessa expansão envolvem o desenvolvimento cada vez mais particularizado de cultivares e técnicas de manejo.

 

“Podemos ter uma variedade amplamente adaptada? sim, podemos. Mas, cada vez mais estamos caminhando para particularidade, especificidade das regiões”, afirmou o pesquisador. 

 

O desafio é grande, mas a experiência acumulada dá otimismo para a jornada. Em Guarapuava, na década de 1970, as primeiras safras produziam em torno de 1 tonelada de cevada. A pesquisa fez isso aumentar muito.

 

“Aquela uma tonelada virou cinco atualmente, aquela zero colheita quando o clima não ajudava virou 3,5 toneladas, até quatro, dependendo da interferência negativa”, relembrou o pesquisador. 

A região dos Campos Gerais já está plantando cevada há três safras (inverno). Uma intercooperação entre as cooperativas Agrária, Bom Jesus, Capal, Castrolanda, Coopagricola e a Frísia está ajudando a acelerar o processo e transferir conhecimento aos produtores novatos na cultura de inverno.

Da panela às fábricas

Qualidade das cervejas artesanais nasce da paixão dos cervejeiros e cervejeiras. A maioria iniciou como ‘paneleiro’ e expandiu produção mantendo o zelo da produção caseira.

As dez cervejarias artesanais de Guarapuava produzem atualmente mais de 50 tipos de cerveja e já receberam juntas mais de 110 medalhas em premiações nacionais e internacionais. Uma indústria que teve um boom recente na cidade e fabrica atualmente cerca de 90 mil litros de cervejas por mês. Os dados foram obtidos com oito das dez cervejarias da cidade.


Em comum, além do amor pela produção da bebida, boa parte dos cervejeiros começaram na panela, em casa, e depois expandiram para produção industrial. 


“Quando eu comecei, tudo era mato”, brinca Leonardo Sampaio, proprietário de uma cervejaria desde 2017. “Há dez anos, quando comecei como Armazém do Malte, e há 14, quando iniciei como paneleiro, não tinha nada, era difícil conhecer novos estilos e ter acesso aos insumos, quando começamos o público veio junto”, completou o pioneiro. 


Atualmente as dez cervejarias de Guarapuava geram em torno de 50 empregos diretos. Sem contar que muitas tem bares, delivery de chopp, o que aumenta a quantidade de trabalhadores. Os bares e a venda de cervejas em barril são as principais formas de comercialização atualmente.


Nove das dez cervejarias foram fundadas nos últimos dez anos. E a maioria tem algo em comum: começou com paneleiros. Assim são chamados os fabricantes caseiros de cerveja.


“Quem veio da panela tem um zelo muito grande pelo produto, na produção industrial manteve essa mesma paixão e o mesmo zelo pela qualidade, só mudou o tamanho das panelas”, contou Sampaio. 

Na indústria, o conhecimento da panela precisa necessariamente se adequar aos padrões exigidos por normativas. Mas para o cervejeiro Ricardo de Almeida Lima, a característica das cervejarias artesanais, chamadas de craft nos Estados Unidos, resultam em um produto único.


“Nos denominamos cervejaria artesanal porque algumas características da nossa indústria são diferentes das grandes, de total automatização, para nós existe espaço para criatividade, é uma indústria que tem um tempo diferente e tem processos diferentes”, explicou Almeida. 


Ele explicou que o nível de intervenção permite produtos exclusivos, com sabores, aromas e texturas que dão diferencial para escolha do consumidor. 


Ricardo se uniu aos irmãos Elisangela e Leonardo para montar, em 2019, a cervejaria. Todos são professores e agora se dedicam à produção da bebida. 


“Tem muito conhecimento de física, química, biologia e muito conhecimento do nível artístico, de sabor, aroma, combinação de ingredientes”, por isso, Ricardo considera que o conhecimento ainda está muito presente na vida dos professores.

Conhecimento

Produção cervejeira exige conhecimento e continuo processo de formação. Além disso, criatividade é fator chave para qualidade dos produtos. 

Premiadas

As cervejas produzidas em Guarapuava receberam mais de 110 medalhas em concursos nacionais e internacionais. 

Investimento

Equipamentos e qualificação são fundamentais para manter excelência na produção das cervejas artesanais de Guarapuava.

Publicado em 21 de fevereiro de 2025. Reportagem de Cléber Moletta.