A Diocese de Guarapuava poderá dar um passo importante no caminho de reconhecimento da santidade de Dolores de Jesus Camargo, jovem natural do município de Pinhão, cuja história de fé, sofrimento e testemunho cristão vem sendo estudada com vistas à abertura de uma causa de beatificação e canonização. O trabalho de investigação foi confiado pelo bispo diocesano, Dom Amilton Manoel da Silva, ao padre André Ricardo Santos Lima, pároco da Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição, em Palmital.
O material já reunido deverá ser encaminhado à Santa Sé, mais especificamente ao Dicastério para as Causas dos Santos, organismo da Cúria Romana responsável por analisar os processos de beatificação e canonização. É esse departamento do Vaticano que examina a documentação, avalia a fama de santidade, as virtudes e, em etapas posteriores, também os possíveis milagres atribuídos à intercessão dos candidatos.
Entrevista com o Padre André
Segundo padre André, a missão lhe foi confiada em 2021 e, desde então, iniciou-se um trabalho minucioso de pesquisa sobre o chamado “Caso da Dolores”. “Como ainda não é uma causa, chamamos de caso: caso da história, das virtudes ou da fama de santidade de uma determinada pessoa”, explicou. Ao longo de cinco anos, foi elaborado um relatório detalhado, com base em entrevistas, documentos, visitas a familiares e consultas a pessoas experientes no tema, incluindo padres e canonistas.
O sacerdote contou que, embora seja natural de Pinhão, nunca havia ouvido falar de Dolores antes de receber a missão. “Foi uma surpresa para mim quando Dom Amilton me ligou e perguntou se eu conhecia a história dela. Eu não conhecia. E ele disse: ‘Há, no Pinhão, a história de uma moça com fama de santidade. Gostaria que você fosse atrás, conversasse, buscasse fontes e fizesse uma pesquisa sobre ela’”, recordou.
Para a elaboração do relatório, foi formada uma equipe com professores e colaboradores de diferentes áreas, especialmente de História e Língua Portuguesa. Padre André relatou que, além de reuniões e entrevistas, houve visitas a Pinhão e Irati, onde foi ouvido o testemunho de dona Ana, irmã de Dolores, ainda viva. “Foi um trabalho exigente, cuidadoso e feito para preservar a veracidade dos fatos, sem exageros e sem incluir nada que pudesse ser questionável”, afirmou.
De acordo com Dom Amilton, o material preparado é consistente e revela a profundidade da vida cristã da jovem. “O padre André preparou um material denso, mas muito profundo e rico de informações sobre a Dolores, sobre a sua vida humana e espiritual. Foi uma existência breve, mas consistente de valores e virtudes, particularmente na vivência cristã. Um exemplo para todos nós”, destacou o bispo.
Uma jovem marcada pela fé e pelo sofrimento

De acordo com o relatório entregue ao bispo diocesano, Dolores de Jesus Camargo nasceu em 25 de março de 1932, na comunidade de Sant’Ana, em Pinhão, filha de Pedro Silvério de Camargo e Umbelina da Silveira Caldas. Proveniente de uma família profundamente católica, cresceu em ambiente de oração, devoção e amor à Igreja. Desde pequena demonstrava forte inclinação religiosa, desejo de ser consagrada e zelo pelas coisas de Deus. Ainda criança, aprendeu em casa as primeiras lições da fé, ajudada especialmente pela religiosidade da família e pelo uso de antigos livros de doutrina católica.
O relatório aponta que Dolores tinha grande amor à oração, à catequese, aos sacramentos e à vida da comunidade. Era devota de Nossa Senhora das Dores, São Miguel Arcanjo, Santo Antônio e Santa Filomena, rezava o Santo Rosário com fervor e cultivava uma vida interior intensa.
Aos 10 anos, foi para Guarapuava estudar no Colégio Nossa Senhora de Belém, com o desejo de seguir sua vocação religiosa. Três anos depois, por ocasião de uma enfermidade grave, sua vida tomou outro rumo. Conforme a pesquisa apresentada, depois de um episódio súbito de paralisia, Dolores passou a viver acamada, sem voltar a sentar-se novamente. Os anos seguintes foram marcados por intensos sofrimentos físicos, limitações progressivas, perda da visão e dependência constante dos cuidados da família.
Mesmo assim, segundo os relatos recolhidos, nunca deixou de viver a fé com serenidade, paciência e espírito de oferta. O documento afirma que Dolores transformou a dor em caminho de entrega a Deus, oferecendo seus sofrimentos pela conversão dos pecadores. Rezava, ensinava orações às crianças, incentivava a prática cristã e fazia do próprio leito uma escola de fé. Nunca reclamava, apesar das dores intensas, e mantinha profunda confiança em Deus.
Fama de santidade e crescimento da devoção
Padre André disse que uma das realidades que mais o impressionaram ao longo do trabalho foi justamente o modo como a devoção começou a surgir de forma espontânea. “O que mais nos marca é a ação de Deus. Isso foge do nosso controle. Assim que divulgamos a primeira foto da Dolores ou o primeiro texto, já surgiram devotos, instantaneamente”, contou. Segundo ele, esse movimento espontâneo tem chamado atenção. “É a mão de Deus suscitando, nas pessoas, abertura e confiança nessa figura, que até então era desconhecida. E as pessoas começaram a rezar, a pedir graças — e muitas graças foram alcançadas”, afirmou. O túmulo de Dolores, no Cemitério da Caróba, no município de Pinhão, já é visitado por muitas pessoas.

Segundo o bispo, a devoção tem crescido gradualmente, inclusive com melhorias no local de sepultamento. “Desde que começamos a investigação, fomos até o cemitério. O túmulo, que antes estava mais simples, foi restaurado pela própria família e hoje já recebe visitas. Também divulgamos uma oração para ser rezada de forma privada, sem antecipar o julgamento da Igreja, mas permitindo que os fiéis peçam a sua intercessão”, afirmou.
O próprio relatório destaca que, embora não tenha havido uma devoção organizada ainda em vida, familiares e pessoas que conviveram com ela sempre percebiam algo de especial em sua conduta. Sua alegria constante, pureza, fidelidade aos princípios católicos, espírito de oração, doçura no trato com as pessoas e capacidade de sofrer sem revolta são traços repetidos em vários testemunhos. Após sua morte, ocorrida em 8 de agosto de 1959, sua memória permaneceu viva entre familiares e moradores da comunidade.
Próximos passos do processo

Depois da conclusão do relatório inicial, o material foi apresentado a Dom Amilton que levou até os bispos do Paraná. “Eu apresentei esse material aos bispos do Regional Sul 2. Eles fizeram algumas perguntas, especialmente sobre o nível de conhecimento da Dolores e a visitação ao seu túmulo”, explicou Dom Amilton.
Agora, a próxima etapa será a elaboração de um texto mais detalhado para envio ao Vaticano. “Se não houver objeções, eles nos darão um parecer favorável, e então a causa será oficialmente aberta na fase diocesana”, explicou padre André.
Caso o Dicastério para as Causas dos Santos conceda o Nihil Obstat, expressão latina que significa “nada impede”, Dolores poderá receber oficialmente o título de Serva de Deus, que é o primeiro passo formal de uma causa de canonização. Depois disso, o processo seguirá com novas exigências documentais, aprofundamento das pesquisas, escuta de testemunhas e eventual análise de graças e milagres atribuídos à sua intercessão.
“O Vaticano solicitará novos documentos para aprofundar a investigação e avaliar as virtudes, a santidade e a possível heroicidade das virtudes da Dolores”, explicou o sacerdote. Ele recorda que, numa etapa posterior, pode vir o reconhecimento do título de Venerável, depois a beatificação, mediante a comprovação de um milagre, e, por fim, a canonização, com um segundo milagre.
Missão recebida com gratidão
Para padre André, a missão de atuar como postulador é vivida com espírito de fé e gratidão. “Eu sempre fui muito devoto dos santos. Acredito que foi providência de Deus. Vejo isso como uma graça. É um trabalho exigente, sim, mas é uma alegria poder me aproximar da história da Dolores”, afirmou.
A possível abertura da causa de Dolores de Jesus Camargo representa, para a Diocese de Guarapuava, não apenas um processo canônico, mas também a valorização de um testemunho simples e profundamente cristão nascido no interior da própria Igreja local. Em meio à dor, à humildade e à perseverança, a história da jovem de Pinhão continua a despertar fé, devoção e esperança entre os fiéis.
Por: Jorge Teles/Diopuava.
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