A procrastinação é um dos mais universais comportamentos humanos. Pesquisas feitas entre universitários calculam que impressionantes 80% a 95% deles admitem procrastinar com uma certa frequência. Esse comportamento se mantém mais ou menos constante quando olhamos para diversas variáveis dos participantes, como gênero, idade, escolarida-de, cultura, ocupação etc.
A procrastinação é, especificamente, o adiamento intencional de tarefas que poderiam e deveriam ser feitas no presente – mesmo quando você sabe que isso é uma ideia burra, que trará ansiedade, culpa e estresse lá na frente.
A palavra em si vem do latim: procrastinare, que significa literalmente “deixar para amanhã” (crastina dies significa “dia de amanhã”). Muito antes da ascensão do Império Romano, porém, já havia humanos registrando a desagradável presença desse inimigo da produtividade.
Escrito nos neurônios
O ser humano não evoluiu para estudar para provas, preencher planilhas ou escrever longas reportagens. Você nasce adaptado à vida que seus ancestrais levaram nos últimos 300 mil anos: desde que o Homo sapiens surgiu na África, viveu 94% de sua existência como caçador-coletor. Faz apenas 8 mil anos que se formaram as primeiras cidades e a monocultura de grãos como trigo e cevada se tornou nossa principal fonte de alimento.
No fundo, grande parte da sua massa encefálica foi moldada para o estilo de vida selvagem. É o chamado sistema limbico, responsável pelas emoções, impulsos sexuais e pelo instinto de sobrevivência – nosso “lado animal”, em suma. Ele é imediatista: prefere sempre ações que trazem resultado (e prazer) no aqui e agora.
Nossos instintos paleolíticos dão muita dor de cabeça nos dias de hoje. É por causa deles, por exemplo, que amamos comer doces e frituras – alimentos que fornecem um caminhão de energia de uma só vez, algo raro na natureza -, mesmo sabendo que, no longo prazo, eles são prejudiciais à saúde.
Divertidamente
Psicólogos vêm estudando a procrastinação de uma perspectiva diferente da dos neurocientistas e têm chegado a algumas conclusões curiosas. Uma delas: o problema não é o controle do tempo, como prega o senso comum, mas sim o gerenciamento de emoções. A procrastinação parece ser um mecanismo de defesa, um modo de lidar com sentimentos desagradáveis.
Quando uma tarefa parece difícil, amedrontadora, tendemos a fugir dela o máximo possível. É comum que procrastinadores adiem tarefas por medo de enfrentarem desafios, de se colocarem à prova e de serem julgados.
“Quando adiamos uma tarefa, não é a tarefa em si que estamos evitando, mas sim as emoções negativas que associamos a ela e que não conseguimos regular”, diz. Fuschia Sirois, professora de psicologia da Universidade de Durham, no Reino Unido, que estuda o tema há mais de 20 anos. “É por isso que digo que as emoções são o marco zero da procrastinação.”
O problema dessa estratégia de defesa é que ela mesma causa mais sentimentos ruins, como ansiedade e culpa – o que, por sua vez, incentiva ainda mais o adiamento das tarefas. E uma bola de neve que transforma tarefas inofensivas em monstros.
Por exemplo: em um famoso experimento dos anos 1990, estudantes universitários foram monitorados às vésperas de uma prova. Os pesquisadores pediram que eles atribuíssem uma pontuação à dificuldade que imaginavam que a prova teria. À medida que os dias se passavam e os estudantes procrastinavam, o grau de dificuldade ia aumentando na percepção subjetiva deles, e atingia seu nível máximo na véspera.
Os alunos que finalmente se sentavam para estudar, porém, percebiam que a prova não era tão difícil assim, e suas pontuações caíam nos dias subsequentes. A procrastinação, por si só, criou um monstro fictício que incentivava ainda mais o adiamento.
Problema sério
“Embora todo mundo procrastine, nem todo mundo é um procrastinador”, diz Joseph Ferrari, professor de psicologia da Universidade DePaul, em Chicago (EUA), e um dos pioneiros no estudo científico da procrastinação. O pesquisador criou o conceito de “procrastinador crônico” – pessoas que, ao contrário de quem adia uma tarefa ou outra, costumam levar a procrastinação para todas as áreas da vida: estudos, trabalho, tarefas do-mésticas, compras, relacionamentos.
Ferrari estima que até 20% dos humanos possam se encaixar nessa definição. Para eles, a enrolação não é escolha. “Dizer para um procrastinador crônico ‘simplesmente vá e faça’ é como falar para uma pessoa com depressão se animar”, diz Ferrari. Por muito tempo, a ciência menosprezou os impactos reais da procrastinação crônica, mas revisões recentes da literatura mostram que o problema pode ser grande. Procrastinadores em série não só têm um desempenho pior nos estudos como também tendem a ter salários mais baixos e a trocar de emprego ou ficar desempregados com mais frequência.
No campo das finanças, a procrastinação crônica está associada a comportamentos nada saudáveis, como poupar pouco para a aposentadoria, não pagar as contas em dia, fazer compras de última hora e não contar com um planejamento financeiro.
A saúde física também pede socorro: procrastinadores crônicos evitam visitas de rotina ao médico e ao dentista, a realização de exames e a adoção de hábitos saudáveis. Além disso, vivem constantemente no estresse de lutar contra prazos – e uma vida estressante, por sua vez, dá um gás no hormônio cortisol, que diminui a capacidade do seu sistema imunológico de combater infecções.
Uma das características dos procrastinadores crônicos é viver em negação. “[Eles] são ótimos em arranjar desculpas”, diz Ferrari. A maioria sabe que procrastina, mas tenta terceirizar a culpa ou encontrar justificativas para o comportamento – é por causa do celular, do estresse, do trabalho em equipe, do trânsito. A estratégia negacionista mais comum, segundo o professor, é tentar pintar a procrastinação como uma estratégia consciente de produção. É o famoso “deixo tudo para a última hora porque funciono melhor sob pressão”. Parece ok, mas há um problema – é pura ilusão.
Ajuda
Para procrastinadores crônicos, o recomendável é buscar ajuda profissional. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) se mostraram eficazes na redução do problema. Em casos mais graves, pode ser que a procrastinação seja sintoma de um problema maior, como depressão, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Por fim, uma outra estratégia pouco intuitiva já se mostrou eficaz contra a procrastinação: autocompaixão. Como vimos, a procrastinação é um comportamento humano, universal e inevitável até certo ponto. Tudo bem falhar um pouco – e se sentir mal por isso só piora tudo.
Estudos mostraram que estudantes que se culpam mais por procrastinar entram num círculo vicioso de emoções negativas, como tristeza e culpa – que, por sua vez, levam a mais adiamento de tarefas. Aqueles que se perdoavam pelo vacilo, em contraste, tinham menos chances de voltar a falhar . As mesmas pesquisas mostram que pessoas que tendem a se cobrar mais e são mais rígidas consigo mesmas estão dando um tiro no pé, porque a busca por aprovação é combustível para procrastinadores.
“Abordagens que focam em melhorar a regulação do humor foram comprova-das cientificamente como boas estratégias para reduzir a procrastinação”, diz Fuschia Sirois. “Isso inclui se tornar mais tolerante a emoções negativas, ter mais autocompaixão, ser receptivo e gentil consigo mesmo e reconhecer que ser imperfeito e procrastinar faz parte do ser humano.”
Fonte: Revista Superintereressante
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