O Museu do Holocausto do Paraná, com sede em Curitiba, divulgou uma nota pública na tarde desta sexta-feira (25) lamentando a saída do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). A instituição afirma que a decisão representa um “grave retrocesso” no compromisso histórico do país com a educação, os direitos humanos e a preservação da memória da Shoá.
A IHRA é uma aliança formada por mais de 40 países, criada em 1998 com o objetivo de combater o antissemitismo, o negacionismo e outras formas de intolerância. O Brasil passou a integrar o grupo como membro-observador em 2021.
Na nota, o museu afirma que o país havia assumido um compromisso “em honrar a memória das vítimas, promover a educação sobre o Holocausto e o letramento antinazista, e combater o antissemitismo, não importem governos ou ideologias”. E considera que, ao sair da IHRA, o Estado brasileiro rompe com essa trajetória de atuação internacional e de diálogo multilateral.
Segundo o site Metrópoles, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comunicou oficialmente à Embaixada de Israel em Brasília que o Brasil está deixando a IHRA. A informação teria sido confirmada por fontes diplomáticas israelenses, sob condição de anonimato. O anúncio público ainda não foi feito pelo governo brasileiro.
A reportagem do CulturaNews procurou o Ministério das Relações Exteriores para confirmar a saída do Brasil da aliança e questionou os motivos para a decisão, se há previsão de pronunciamento oficial sobre o assunto e quais impactos essa medida pode ter nas relações diplomáticas com Israel. Até o momento, não houve resposta.
A tensão entre Brasil e Israel se agravou desde o início da guerra na Faixa de Gaza. Em fevereiro deste ano, o presidente Lula comparou a ofensiva israelense à perseguição nazista contra os judeus, o que gerou forte reação por parte do governo de Israel, que declarou Lula “persona non grata”. Em seguida, o Brasil retirou seu embaixador em Tel Aviv, e ainda não aprovou o nome do novo embaixador indicado por Israel para o posto em Brasília.
Ao criticar o apoio brasileiro à ação movida pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, o Ministério das Relações Exteriores de Israel também anunciou que o Brasil havia decidido se desligar da IHRA. Ainda segundo o Metrópoles, o Itamaraty não informou os motivos da decisão à diplomacia israelense.
Leia a nota do Museu do Holocausto de Curitiba na íntegra:
O Museu do Holocausto de Curitiba lamenta e expressa preocupação diante da saída do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA)
A IHRA é um fórum multilateral criado em 1998 como uma resposta ao crescimento de ideias neonazistas e negacionistas. Ela é um pacto entre Estados, um compromisso global de encorajar o estudo do Holocausto em todas as suas dimensões. É como uma convenção democrática, um acordo em larga escala.
Em 2021, o Brasil foi aceito, por unanimidade, como membro-observador da IHRA. A inclusão nesse seleto grupo significava que o país selara definitivamente um compromisso em honrar a memória das vítimas, promover a educação sobre o Holocausto e o letramento antinazista, e combater o antissemitismo, não importem governos ou ideologias.
Na prática, o Brasil se comprometia a avançar em propostas pedagógicas, de pesquisa e de memória do Holocausto, reforçando os pactos firmados na Declaração de Estocolmo de 2000. Isso inclui a criação de pontes pedagógicas e a atualização das legislações ligadas aos temas do antissemitismo e do anticiganismo.
Ao abandonar a IHRA, o Estado brasileiro abandona sua tradição de multilateralismo e atuação em foros internacionais. A IHRA é um espaço estratégico de articulação internacional pautada num esforço conjunto de diálogo e diplomacia. Nem todas as mais de 40 nações-membro estão de acordo com todas as diretrizes. Isso faz parte do jogo. No entanto, todos reconhecem a importância diplomática e simbólica da IHRA no enfrentamento ao antissemitismo e na construção da memória da Shoá. Por isso, debatem. Sempre.
A infeliz saída do Brasil da IHRA envergonha e abala seu prestígio diplomático construído desde os princípios moldados pelo Barão do Rio Branco, há mais de 100 anos. Um deles era o universalismo das relações exteriores: dialogar com todos os países, independentemente de ideologias ou blocos políticos.
Não procedem quaisquer justificativas para a saída do Brasil da IHRA que culpem a diretriz de definição sobre o antissemitismo, de 2016. Existem outros conceitos, como a do Projeto Nexus (2020) ou da Declaração de Jerusalém (2021), que agradam ou desagradam grupos diversos. A IHRA é muito mais do que sua definição de antissemitismo. Reduzi-la a isso é ignorar quase 30 anos de trabalho em educação, memória e combate ao ódio.
O Museu do Holocausto de Curitiba lamenta e expressa profunda preocupação diante da saída do Brasil da IHRA. Tal decisão representa um grave retrocesso no compromisso histórico do país com a educação e os direitos humanos, ferindo inclusive a memória da da Força Expedicionária Brasileira. Instamos as autoridades a reconsiderar essa medida que, em suma, vai contra a luta para gerar legados da tragédia cometida contra judeus, população roma e sinti, afro-alemães, pessoas com deficiências, testemunhas de Jeová, pessoas LGBTQIA+, opositores políticos e outros grupos perseguidos.
Curitiba, 25 de julho de 2025
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