Madeireira de Guarapuava e outras do Paraná adotam férias coletivas após tarifa de 50% anunciada pelos EUA

Setor florestal já sente os efeitos do comunicado do governo Trump e toma medidas preventivas antes da nova taxação entrar em vigor.

Foto: Divulgação/ BrasPine

16/07/2025 às 14:59 - Atualizado em 16/07/2025 às 19:52

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Desde a última segunda-feira (14), parte dos trabalhadores da madeireira Millpar, em Guarapuava, está em férias coletivas por 15 dias. A medida é uma resposta direta à nova tarifa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelo governo dos Estados Unidos, que entra em vigor em 1º de agosto. A empresa afirma que a decisão atinge setores específicos da unidade, com foco na readequação da produção às novas condições do mercado internacional.

“Estamos tomando decisões com base em dados concretos, visão de longo prazo e foco na sustentabilidade do negócio”, afirmou o CEO da Millpar, Ettore Giacomet Basile.

O setor administrativo da empresa continua operando normalmente, segundo a direção. A medida é preventiva e busca proteger a estrutura produtiva e a estabilidade do negócio diante de um cenário internacional instável.

(Informação atualizada às 19h48)

A Millpar informou ainda que sua é direcionada para exportação, sendo o EUA o maior mercado consumidor. A empresa possui 1.109 colaboradores nas duas unidades (Guarapuava e Quedas do Iguaçu), sendo que em torno de 640 estão em férias coletivas, todos colaboradores de setores atrelados à manufatura de molduras para exportação.

O número de pessoas em férias pode ainda aumentar, dependendo do desenrolar da situação nos próximos dias.

Leia a nota da Millpar na íntegra:

NOTA À IMPRENSA

A Millpar informa que, diante do recente anúncio do governo norte-americano sobre a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros, está adotando medidas estratégicas para preservar a companhia e garantir o avanço sustentável de suas operações a longo prazo.

“Estamos tomando decisões com base em dados concretos, visão de longo prazo e foco na sustentabilidade do negócio. A empresa já enfrentou grandes desafios antes e é justamente nesses momentos que reforçamos nossa capacidade de adaptação e resiliência”, destaca o CEO da Millpar, Ettore Giacomet Basile.

Como parte dessas ações, alguns setores da unidade de Guarapuava entraram em férias coletivas, por um período de 15 dias, a partir de 14 de julho. A decisão abrange setores específicos e foi tomada com base em análises criteriosas, visando ajustar a produção à dinâmica temporária do mercado internacional.

“Ressaltamos que os setores administrativos seguem operando normalmente, assegurando a continuidade das atividades e o suporte a clientes e parceiros. Nossa gestão está acompanhando de perto essa movimentação global. Todas as decisões são orientadas por estudos e avaliações do mercado, sempre com prudência e respeito às pessoas que constroem a história da Millpar”, destaca Ettore Giacomet.

Também no setor madeireiro, a empresa BrasPine, com unidade industrial em Jaguariaíva (PR), anunciou férias coletivas como parte de um plano de adequação operacional. Em nota, a companhia informou que vem adotando ações planejadas diante do cenário de alta volatilidade econômica e que monitora de perto as movimentações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

No Paraná

Outra empresa que já sente os efeitos do anúncio da nova tarifa é a BrasPine, com unidade em Jaguariaíva, nos Campos Gerais. Exportadora de produtos de madeira para os Estados Unidos, a empresa também adotou férias coletivas e informou que colocou em prática um plano de ajuste para enfrentar o cenário de incertezas e manter a sustentabilidade das operações.

A BrasPine possui aproximadamente 2.500 colaboradores, distribuídos entre as unidades de Jaguariaíva (1.200 funcionários), Telêmaco Borba (1.100), além de 150 trabalhadores florestais e 50 profissionais nos escritórios administrativos de Curitiba e Porto Alegre.

Com as férias coletivas, cerca de 700 colaboradores da unidade de Jaguariaíva serão temporariamente afastados, divididos em duas turmas. A empresa ressalta que as operações serão reduzidas, mas não suspensas — a fábrica continuará em funcionamento durante o período da medida.

Leia a nota da BrasPine na íntegra:

COMUNICADO OFICIAL

BrasPine adota plano operacional para adequação de produção diante de nova tarifa imposta pelos Estados Unidos

Na última terça-feira (9), o governo dos Estados Unidos anunciou a elevação da tarifa de importação sobre produtos brasileiros, de 10% para 50%. A medida, oficializada pelo presidente Donald Trump por meio de carta enviada ao governo brasileiro, entra em vigor em 1º de agosto e afeta diretamente as exportações da BrasPine.

Em resposta a esse cenário adverso — que já vinha sendo monitorado de perto pela empresa — a BrasPine está colocando em prática um conjunto de ações previamente planejadas, com foco na adequação da capacidade produtiva e na sustentabilidade do negócio. Entre essas ações estão a concessão de férias coletivas na unidade de Jaguariaíva (PR) e o reforço nas práticas de controle orçamentário, com priorização de investimentos essenciais e atenção rigorosa à gestão financeira.

Essas decisões fazem parte de um plano operacional construído com base em análises de riscos e cenários prospectivos, e foram desenhadas justamente para possibilitar respostas rápidas e estruturadas em situações de alta volatilidade econômica.
Fiel ao seu compromisso com a transparência e o diálogo, a BrasPine comunicou prontamente sua equipe sobre as medidas adotadas, fortalecendo a confiança mútua que sustenta seu modelo de gestão.

A empresa permanece atenta às movimentações diplomáticas e comerciais, na expectativa de que o governo brasileiro conduza negociações eficazes com os Estados Unidos, buscando a reversão ou moderação da tarifa e a preservação da competitividade das exportações nacionais.

Mesmo diante de desafios significativos, a BrasPine segue firme em sua trajetória, amparada pela solidez de sua operação e pela união de seu time.

14 de julho de 2025

Madeira do Paraná usada no mercado estadunidense. Foto: Divulgação/ BrasPine

Tentativas de contato sem retorno

A reportagem solicitou informações ao Sindicato das Indústrias de Madeira de Guarapuava (Sindusmadeira), sobre os impactos da nova tarifa nas indústrias locais, quantas empresas atuam no setor, quantas exportam e quais reflexos já foram sentidos até agora. Até o momento, não houve retorno.

Também foi feito pedido à Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) para um posicionamento oficial, por vídeo ou entrevista, comentando as reações das indústrias paranaenses e os impactos no estado. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

A reportagem ainda tentou contato com outra indústria madeireira de referência em exportação sediada em Guarapuava, mas também não obteve resposta.

Setor florestal sob pressão

A Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE) reagiu com preocupação à medida imposta pelos Estados Unidos. O presidente da entidade, Fábio Brun, afirmou que a taxação foi uma surpresa e que o setor não esperava esse segundo movimento tarifário, já que uma tarifa semelhante foi aplicada em abril.

“Na verdade, o Brasil é deficitário na relação com os Estados Unidos. Então, é difícil encontrar base econômica concreta para justificar essa medida. A reversão terá que ser construída por via diplomática”, disse Brun.

Em 2025, os estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) exportaram US$ 1,37 bilhão em produtos de madeira para os EUA — o equivalente a 86,5% do total nacional. O Paraná é responsável por cerca de 40% dessa produção.

Guarapuava tem relação direta com os EUA

Os Estados Unidos foram o principal destino das exportações de Guarapuava no primeiro semestre de 2025, respondendo por 43,1% de todo o volume exportado pelas empresas do município. Os dados são do Ministério da Indústria e Comércio e indicam movimentação de US$ 39,5 milhões, principalmente em placas e molduras de madeira para a construção civil norte-americana.

Caso a nova tarifa estivesse em vigor no primeiro semestre, os compradores americanos teriam que desembolsar cerca de US$ 19,75 milhões a mais, elevando o custo total para US$ 59,25 milhões. Isso pode desestimular a compra e obrigar as empresas brasileiras a redirecionarem sua produção para outros mercados.

Guarapuava mantém forte dependência do setor madeireiro, que empregava, em maio de 2025, 2.822 trabalhadores, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho.

Governo brasileiro reage com carta oficial

Na tarde desta quarta-feira (16), o governo brasileiro enviou uma carta oficial de protesto ao governo norte-americano, assinada pelos ministros Geraldo Alckmin (MDIC) e Mauro Vieira (Relações Exteriores). As informações são da Agência Brasil.

“O governo brasileiro manifesta sua indignação com o anúncio, feito em 9 de julho, da imposição de tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, a partir de 1º de agosto”, diz o documento.

Foto: Divulgação/ Embaixada dos EUA

A carta reforça que a relação entre os dois países tem histórico de cooperação econômica e que o Brasil acumula um déficit de aproximadamente US$ 410 bilhões nos últimos 15 anos na balança comercial com os EUA.

As autoridades brasileiras destacam que aguardam resposta de uma proposta enviada em maio e pedem diálogo urgente para evitar danos maiores às economias de ambos os países.

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