Na tarde desta sexta-feira (20), o delegado-chefe da Polícia Civil em Pinhão, Anderson de Santan, disse à Rádio Cultura que a polícia ainda não tem informações para repassar sobre a morte de Iracema Correira dos Santos, de 64 anos, assassinada à tiros, por volta das 20h de ontem (19), no Faxinal Bom Retiro, município de Pinhão. Ele disse apenas que investigações estão no começo e que as testemunhas serão ouvidas, além do que não está sendo descartada nenhuma linha de investigação.
Segundo a Polícia Militar, o neto da vítima foi quem chamou socorro. Ele disse que estava com a avó na casa dela, mas que saiu para ir a um bar. Quando retornava à residência, ouviu um barulho de tiro, e ao chegar perto do portão da casa encontrou a avó morta. Um familiar de Iracema disse à nossa reportagem que ela foi morta com pelo quatro tiros.
Desde 2005, a idosa fazia parte da Articulação dos Povos Faxinalenses (APF). A Rádio Cultura teve acesso à uma nota oficial divulgada pela Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses.
Leia nota na íntegra:
Dona Iracema, Faxinalense: mais uma vítima assassinada na luta pelo território no
Paraná
A coordenação da Articulação dos Povos Faxinalenses (APF) e o Núcleo em Defesa dos Direitos de Povos e Comunidades Tradicionais (NUPOVOS/IFPR), vem através desta nota pública, informar sobre o assassinato da liderança faxinalense, Dona Iracema Correia dos Santos, no dia 19/12 (quinta-feira), por volta das 20h, dentro de sua casa, no Faxinal Bom Retiro, município de Pinhão.
Dona Iracema, tinha 64 anos, era casada com Adão Correa, e criaram todos os filhos e netos no faxinal Bom Retiro. Nasceu e se criou no faxinal e carregava com orgulho a identidade faxinalense nos eventos do movimento e na luta quotidiana pela defesa do faxinal. Seu nome de “batismo” na luta era “Dona Iracema”, a mulher que desde menina conheceu a violência dos jagunços da Zattar e não temia o enfrentá-los para defender o território faxinalense. Iracema também era a liderança que conduzia os mutirões de cerca e combatia a grilagem contra as terras do faxinal. Da mesma forma sempre levantou a bandeira da educação escolar faxinalense por meio da luta pela construção de uma escola municipal em sua comunidade, obra que infelizmente não ocorreu, em razão do desinteresse demostrado pela Prefeitura do Pinhão. Sempre à frente na defesa do faxinal, Dona Iracema fazia parte da APF desde 2005, quando o movimento foi criado. Atualmente contribuía nos coletivos de educação e do território da APF.
Aliás, foi justamente a luta pelo território a mais provável causa de seu assassinato, na noite do dia 19/12. As suspeitas, que aguardamos sejam apuradas com agilidade, foi realizada por disparos de arma de fogo, e provavelmente, deve-se ao histórico de conflitos por terra, decorrentes da invasão de grileiros dentro do território faxinalense. As intimidações e ameaças à Dona Iracema, sua família e os demais faxinalenses já eram de conhecimento público desde 2006, quando ela já havia sido listada no Caderno de Conflitos do Campo da CPT. Situação essa, que se repetiu diversas outras vezes nesses últimos anos.
A emboscada que resultou no assassinato de Dona Iracema, atingiu todos os faxinalenses e a sociedade do Paraná, em um momento marcado pelo aumento das tensões e conflitos nos faxinais, sob forte ataque do agronegócio, grandes empreendimentos, chacreiros e grileiros. Desse modo, o silenciamento de lideranças pela violência física de seus corpos, sinaliza mais uma vez, as fragilidades das políticas públicas no atendimento as medidas de regularização territorial dos faxinais, o que tem levado ao permanente e cada vez mais intenso clima de ameaças, intimidações e assassinatos, situação a que estão submetidos nos últimos 50 anos e que tem se intensificado recentemente contra os povos faxinalenses e seus territórios tradicionais no Paraná.
Lembramos que há pouco mais de um ano, devido ao aumento da violência contra os faxinalenses, em novembro de 2023, a APF realizou o 1º Seminário de Segurança Pública nos Territórios Faxinalenses, com a presença da Secretaria de Segurança Pública do Paraná e demais órgãos do sistema de justiça estadual, para denunciar os crimes praticados contra os faxinalenses, com intuito de buscar proteção aos nossos territórios, segurança esta que ainda não chegou, pois sequer o Grupo de Trabalho prometido pelas instituições presentes foi criado, apesar da insistência da APF.
A despeito do Faxinal Bom Retiro ser categorizado como uma Área Especial de Uso Regulamentado (ARESUR) pela SEDEST/PR, o que muito pouco resulta em proteção territorial fornecido pelo Estado e municípios, desde 2014, os faxinalenses da localidade aguardavam a finalização da criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) pelo ICMBio, política abandonada pelos governos Temer-Bolsonaro, e retomada, recentemente pelo governo Lula. Em função disso, Dona Iracema não escondia a alegria de que em janeiro de 2025 receberia a visita dos técnicos do ICMBio no Faxinal Bom Retiro para retomar a fase final de criação da primeira “RDS Faxinais” no país.
Em tempo, manifestamos nossa solidariedade à família de Dona Iracema e a todos os faxinalenses, no momento que solicitamos ao Estado do Paraná, por meio da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SESP), a Secretaria da Mulher, da Promoção da Igualdade Racial e da Pessoa Idosa (SEMIPI), do Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais, da Defensoria Pública Estadual e do Ministério Público Estadual, para que seja adotada rigorosa diligência, a fim de encontrar os mandantes e executores desse bárbaro crime, a fim de garantir justiça aos povos faxinalenses, bem como a todos os povos tradicionais do Paraná. Aproveitamos, nesta ocasião solicitamos atenção especial ao governo federal, através do apoio do Ministério dos Direitos Humanos, Ministério da Igualdade Racial, Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Justiça e Segurança Pública e ao Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, tendo em vista a proteção aos faxinalenses e seus territórios.
Pinhão, 19 de dezembro de 2024
Deputado se pronuncia
O Deputado Estadual Dr. Antenor (PT), divulgou um vídeo no qual lamenta a morte de Iracema e cobra respostas das autoridades quanto às investigações do crime.
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